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Ludoterapia: porque é que a terapia não tem de ser penosa
Uma criança que não fala de uma experiência difícil costuma encená-la. A ludoterapia aproveita isso: o que a criança não sabe dizer, mostra a brincar.

Peça a uma criança de sete anos que descreva o que a assustou e, normalmente, o que recebe é um encolher de ombros. Dê à mesma criança umas figuras e alguns blocos e, em dez minutos, aquilo que a assustou ganha forma, lugar e fim. Essa distância entre o que a criança consegue dizer e o que consegue mostrar é a própria base da ludoterapia.
A ludoterapia não é uma versão mais leve da «verdadeira» terapia. É um método construído em torno de um facto: as crianças processam as experiências através da ação muito antes de as conseguirem processar através da conversa. O terapeuta não se senta em frente da criança a fazer perguntas. Senta-se ao lado dela e presta muita atenção ao que é construído, derrubado, escondido e salvo.
O que a ludoterapia dá à criança
Uma forma de dizer coisas difíceis
Os brinquedos permitem à criança exprimir sentimentos e acontecimentos de forma simbólica, sem ter de lhes dar nome. Uma boneca pode ter medo, para que a criança não tenha de admitir que tem medo. Uma torre pode cair e ser reconstruída. Isto é muito menos intimidante do que uma pergunta direta e, para uma criança que ainda não tem vocabulário para os seus próprios estados emocionais, é muitas vezes o único caminho possível.
Uma relação que a criança quer mesmo ter
Como brincar é agradável, a criança passa a ver o terapeuta como um companheiro, e não como alguém que lhe aplica um procedimento. Essa ligação não é um efeito secundário agradável: é o que torna o trabalho possível. Uma criança que se sente segura revela mais, experimenta mais e tolera mais dificuldades numa sessão.

Preparar a sala
Basta um espaço pequeno
Um espaço de ludoterapia eficaz não exige uma sala grande. O que conta é a organização: arrumação acessível, para que a criança possa escolher os materiais sozinha, uma zona de chão livre para o movimento e um canto que se possa tornar sossegado. Caixas e prateleiras baixas fazem mais por uma sessão do que os metros quadrados.
Inclua elementos de um parque infantil coberto
Estruturas modulares macias, túneis, algo para trepar: tudo isto acrescenta atividade física à sessão, o que conta a dobrar. Faz bem ao corpo e dá à criança uma forma legítima de descarregar a tensão a meio de um tema difícil. Uma sessão em que a criança pode alternar entre construir, trepar e ficar sentada em sossego prende-a muito mais tempo do que uma sessão passada à mesa.
Técnicas que vai encontrar
Jogo de papéis
Assumir um papel permite à criança exprimir sentimentos que de outra forma não admitiria. Fazer de pai ou mãe, de médico ou de vilão é uma forma segura de experimentar reações a situações que são difíceis na vida real – e de ver o que acontece quando a reação muda.
Arte e construção
Desenhar, pintar e construir tornam palpáveis os estados interiores. O que a criança constrói, e a forma como trata o que construiu, transmite informação que nenhuma entrevista daria. A brincadeira de construção, em particular, dá ao terapeuta algo para observar ao longo do tempo: a construção fica mais alta, mais segura, mais fechada?
Contar histórias
O terapeuta começa uma história e a criança continua-a. As narrativas que as crianças inventam tendem a refletir de perto as suas próprias preocupações e esperanças, e terminar uma história permite à criança dar um fim a uma situação difícil – um fim que a realidade ainda não lhe deu.
Idades diferentes, brincadeiras diferentes
Crianças pequenas. A comunicação verbal é limitada, por isso são os bonecos, os blocos e os conjuntos de brincar que fazem a maior parte do trabalho. A brincadeira descontrai a criança e torna-lhe mais fácil exprimir-se.
Adolescentes. Costumam resultar melhor formas mais estruturadas, como jogos de estratégia e jogos de interpretação de papéis. Dão um enquadramento para falar de ansiedade social, cooperação e resolução de problemas sem que a conversa seja diretamente sobre o adolescente.
Adultos. É menos comum, mas também se usa: cartas metafóricas, jogos de tabuleiro, tarefas criativas. Para quem tem dificuldade numa conversa direta, vale a pena ter um caminho indireto.
Continuar em casa
Um cantinho de brincar
Um canto próprio e seguro, com material variado (materiais artísticos, blocos de construção, figuras), prolonga o trabalho da sessão no dia a dia. Três regras fazem-no funcionar:
- Mantenha-o livre de distrações e de perigos.
- Equipe-o para diferentes tipos de brincadeira: criativa, de construção, de faz de conta.
- Deixe a criança organizá-lo. Sentir que o canto é dela faz parte do que o torna útil.
Técnicas nos momentos do dia a dia
Falar através de um fantoche à hora de deitar, inventar uma história em conjunto, deixar a criança dirigir uma brincadeira: nada disto é terapia, mas tudo isto usa o mesmo mecanismo e mantém o canal aberto entre as sessões.
Onde entram os blocos macios
Os grandes blocos magnéticos de espuma são um equipamento útil numa sala de terapia, porque respondem a várias necessidades ao mesmo tempo: brincadeira de construção, estrutura para trepar, obstáculo físico a ultrapassar e paredes de um cantinho de tranquilidade quando a criança precisa de se recolher. O terapeuta reorganiza a sala à volta da criança, em vez de adaptar a criança à sala.
Veja os conjuntos ou leia como os blocos são usados em terapia.
Em resumo
A ludoterapia resulta porque parte do ponto em que as crianças já estão. Não exige que a criança traduza a sua experiência para a linguagem dos adultos antes de se poder trabalhar com ela. Com uma sala onde se possam mexer, materiais a que possam dar forma e um adulto que observa sem dirigir, a maioria das crianças mostra-lhe o que se passa muito antes de conseguir dizê-lo.